Íamos e vínhamos do Caixão, Malhada Grande e Santa Brígida. E se ocorrer o inesperado? Que farei eu? Serei capaz de manter o sangue frio? Estarei eu preparado? Era o que eu sempre pensava. O que me preocupava.
Numa das idas ao Caixão, no meio da pista, uma loura esvoaçada, braços esbaforidos para o ar, pedia socorro. Poderia ser um engodo. Não era. Pouco adiante, no mato, um fusca de rodas para o ar. Já quase na entrada de Santa Brígida, policiais fardados e em trajes civis, fuzis e metralhadoras apontadas para nós, nos pararam. O que teríamos feito de errado, foi o que nos veio à cabeça. No carro, dois americanos e três de nós. Um atentado terrorista nos rincões do sertão da Bahia? Vale lembrar que Lampião e parte do seu bando já haviam sido trucidados. O cabelo se nos enriçou. Mãos para cima, claro, saímos do carro e o incidente se esclareceu. Não éramos ladrões de banco, mas missionários em um trabalho de pregação das Boas Novas.
Chegamos ao terceiro incidente, e ao objetivo da introdução no primeiro parágrafo. Na volta de Malhada Grande, ao lado da rodovia, uma jovem senhora prestes a dar à luz a uma criança. Botei a mão na cabeça e, de chofre, comecei a me repreender e a me crucificar. Eu não tinha me preparado adequadamente para a situação na falta de uma parteira, de um médico ou de um socorrista.
Como Deus é sempre bom e provedor, no nosso carro, de carona para o centro, um jovem que trabalhava no Centro de Saúde de Malhada. Providencialmente, trazia na maleta nada mais surpreendente que uma tesoura e um pequeno frasco de álcool. Confabulamos todos nós e a conclusão foi que o cordão umbilical deveria ser cortado a cerca de quatro dedos da barriga da criança e que a parturiente deveria ser conduzida imediatamente a um serviço de pronto-socorro. Foi o que fizemos e o bebê, de quem bem poderíamos ter nos tornado padrinhos, deve ser, hoje, um galalau pujante nos seus vinte e poucos anos.
Então a preparação. A previdência. Preparar-se antes de o problema acontecer. Haverá sempre os negacionistas. Sempre alertamos para o perigo de uma carreta se desgovernar e se desbandeirar em direção à Estação Rodoviária. Já havia acontecido algo semelhante mais adiante e um homem tinha morrido esmagado contra a cerca. Ainda assim, um “perito”, que poderíamos classificar como engenheiro de obras prontas ou, data vênia, burro ativo, escreveu para o site argumentando que nada semelhante teria condição de acontecer. Eu estaria falando bobagens, o que parece ser a minha sina.
Aconteceu. De novo, aconteceu. Um ônibus escolar se descontrolou na curva e uma desgraça maior não teve lugar porque uma algaroba heroína barrou a sua trajetória. Com base nestes fatos, eu, pessoa física, jardineiro voluntário de Paulo Afonso, plantei uma muda de caraibeira e outra de catingueira com o intuito de formar uma espécie de Linha Maginot preventiva de uma invasão. Baldinhos de água e compostagem na mala do carro, trabalho à Dom Quixote, às vezes com disfarce, elas se desenvolveram até à mocidade. Logo acima da minha casa no BNH, nas minhas saídas para o centro, eu as contemplava e me preocupava. Anelava vê-las adultas e fortes para cumprir a missão que lhes tinha sido atribuída.
Anteontem, o pesadelo se tornou realidade. Uma carreta, por erro até compreensível do motorista, se esbarrou sobre a nossa caraibeira e a jogou por terra. Quem poderia socorrê-la? De onde viria o socorro? Dos deuses elevados nos cumes dos montes? Um, dois, três dias. Os deuses se provaram insensíveis. Zangados, talvez, pela nossa falta de fé e aderência ao hedonismo que satisfaz à carne.
Quinta-feira passada, a ida à prefeitura em busca de ajuda. Mas incomodar o senhor prefeito por causa de uma árvore? De uma simples e infeliz árvore? Não obstante, fomos. Eram quase oito horas da manhã. Ninguém, quase ninguém, por lá. Parecia o dia seguinte à Batalha do Armagedom. Entendi, depois, o que poderia estar acontecendo. O frei Gilson cantaria de noite para os fiéis de Paulo Afonso e toda a máquina municipal deveria estar ocupada com os preparativos necessários.
Fui então ao setor competente em relação às árvores na avenida Floriano Peixoto. Encontrei a funcionária Aiane que socorreu o socorrista de forma exemplar e cativante. Ela convocou quem me pareceu ser o Sancho Pança ideal, o funcionário Dener, e partimos para a operação de salvamento. O doutor Márcio Tenório foi o terceiro mosqueteiro essencial para a operação. Vale atestar a boa vontade do jovem Dener. Eu argumentei que ele se sujaria, se molharia de suor e danificaria roupas e sapatos. Nada abalou o jovem. E partimos para a área. Descemos um pouco a rua, paramos na frente da nossa casa e nos municiamos das ferramentas necessárias.
Conseguimos reerguer a pobre e desvalida árvore debutante e amarrá-la a um suporte improvisado enfiado em um buraco cavado com sangue, suor e lágrimas. Evidente que escrevemos com uma pitada de exagero e estamos ciente que a conversa está ficando comprida. É que sabemos para quem escrevemos e confiamos na sua responsabilidade civil ou cidadã.
De forma que conseguimos manter mais uma caraibeira, ou ipê amarelo, para o poetas se refestelaram em figuras de estilo ou sintaxe, para o bem da Natureza e para a segurança dos passageiros e funcionários da Estação Rodoviária – com sangue, suor e lágrimas – com trabalho talvez de “gente besta que não tem o que fazer”.
Francisco Nery Júnior

