Não, não se trata de dois galos. Trata-se de um senador e do presidente da República Federativa do Brasil; do supremo magistrado da nação e comandante-em-chefe das Forças Armadas.
O “debate” de ontem mereceria o nome de tudo, menos de debate. Deplorável e nojento. Dispensável. Deprimente. Colocaram dois inimigos lado a lado, frente a frente, para se dilacerar[em] e a plateia batia palmas. Se divertia. Faziam, os espectadores, apostas. Espetáculo, no mínimo, denegridor.
Nas nossas ruas – e nos jornais de todo o mundo – queixos caídos.
A briga de galo é proibida no Brasil. Dois galos a se matarem por nada, absolutamente nada, é considerado crueldade. Dois candidatos à presidência da República, não é.
E os ciosos da sua privacidade e respeito se omitem da política. Tornar-se presidente da República tendo que se expor ridiculamente como dois adolescentes estudantes de ginásio e, após o mandato, parar na cadeia não interessa ao cidadão comum de bem. Os malandros, mais uma vez, fazem a festa.
Os grandes temas da vida nacional, pra que discuti-los? A dívida interna [criminosa] de mais de dez trilhões de reais (em 1994 não passava dos oitenta bilhões), os altos juros praticados, a infraestrutura do país, as milhares de favelas, a insegurança nas ruas, a descarada compra de votos com as chamadas emendas parlamentares, a indispensável reforma política, discutir pra quê?
De fato, o cidadão que se vire. Que aguente. Que exploda. Data vênia da grosseria, que se lasque.
O Brasil, pelo que vemos na mídia internacional e nas ruas de Paulo Afonso, acordou de ressaca do triste espetáculo a que assistiu.
Francisco Nery Júnior

