Não importa que [eu] tenha seguido o magistério pelo exemplo do meu pai sempre a nos educar. Não importa a figura honrosa e maternal das minhas professoras primárias. Não importa a nobre, nobilíssima, tarefa de mexer nas cabeças dos estudantes (“aluno” para mim é uma palavra vilmente deturpada tão preferida dos malandros do imediato da “educação”).
Não importa, finalmente, ter tido Maria Magalhães como minha professora caída do céu. Desejei ardentemente replicar a sua metodologia nas minhas salas de aula. Não deixaram. Aluno da “Baixa da Égua” não era para estudar inglês, absurdo que ouvi dos próprios vituperados à exaustão nos meus primeiros cerca de quinze anos em Paulo Afonso: vitória provisória de uma narrativa cruel e desprezível.
Esta introdução, a título de explicação, está contaminada pela noção de estarmos no Dia do Professor esquecendo, por um instante, a jornada de trabalho agora aprovada no Congresso Nacional, poucos dias antes da eleição presidencial de segundo turno.
Várias categorias já não estão sujeitas ao debatido e explorado princípio constitucional dos seis dias de trabalho por um de descanso. Um total de 30% dos trabalhadores já se submetem aos cinco dias de trabalho (por dois de descanso) e algumas categorias têm seu próprio regulamento.
Após o serviço militar, um ano de experiência e aprendizado na Marinha do Brasil, iniciei minha vida de INSS na Companhia Energia Elétrica da Bahia na Seção Folhas de Pagamento, vida e contribuições cinicamente surrupiadas pelo senhor Fernando Henrique Cardoso, na escala de cinco por dois.
Então escolhi ser professor. Formado em Letras pela PUC de Salvador, iria, ato contínuo, iniciar o meu curso de direito. Eu contemplava os tribunos da Bahia a manobrar a sua retórica. Admirava os grandes do pensamento brasileiro, muitos dos quais oriundos de faculdades de direito. Como eles se posicionavam e agiam. Ser professor significaria estar em uma sala de aula até quase meia-noite, mas, também, a possibilidade de estar em uma praia – ou em uma biblioteca – em dia de meio de semana. Em suma, não se preocupar com escala qualquer que fosse.
Mas entrei para a Chesf e nela apostei sem nunca ter me arrependido. Se inimigos os houve, eles me fizeram um favor. Favor de poder nunca ter dobrado a coluna e renunciado a princípios e verdades hoje valorizados por muita gente. Valeu a pena. Retardadamente valeu. E valeu. O reconhecimento, embora as falha de percurso, se repete cada vez mais nas ruas e esquinas de Paulo Afonso. Cada abraço e aceno de um estudante nada Maria vai com as outras é uma satisfação. Iria bem mais longe e diria um encanto. Prazer enorme vê-los vencedores na vida, pais de filhos proativos e avós de netos devidamente paparicados. Os professores, hoje Dia do Professor, os amam.
Que fiquem eles certos do que vai acima e nos perdoem se excesso houve nas palavras de um simplório mestre sincero no mister de ensinar e educar no sentido de incentivar e provocar o raciocínio – horror para os malandros de sucesso provisório.
Francisco Nery Júnior
P.S. Ao colocar o ponto final nesta matéria, acabo de receber mensagem de Cícero, serralheiro metalúrgico competente que aposta no trabalho, meu vizinho de quarenta anos. Mensagem de elogio no Dia do Professor que faço questão de compartilhar com os colegas de Paulo Afonso.

