Passava eu e a mulher, melhor dizendo, a mulher e eu, carece prevenir, e o cortejo a carregar o féretro ao seu descanso final. Monumental! Dezenas de carros no acompanhamento. “Deve ser alguém importante”, lançou ela, a mulher a meu lado.
Era importante mesmo. O falecido era um professor. Não tive o privilégio de o conhecer de perto. Não conheci o colega que alunos, amigos e familiares agora choravam. O choro deles consolou a mim. O colega já estava em outra dimensão. O reconhecimento do trabalho do colega professor sobrou para nós outros da tarefa de educar – e ensinar. O professor responsável sabe muito bem que o reconhecimento vem bem para a frente equacionado na idade provecta. E é uma das delícias de ter sido professor. Nas ruas, nos cantos e nas vielas da vida, um aluno sempre pronto, quase sempre pronto, para o reconhecimento. Se eles soubessem, pelo menos imaginassem, o sabor de vê-los bem e vitoriosos! Para isso estivemos lá, na sala de aula dos exercícios mentais, nem sempre aos beijos e abraços fortuitos e fáceis, para a vitória; deles a vitória.
Vêm à memória os meus próprios professores. Eles, todos eles sem exceção, eternamente entronizados no panteão do reconhecimento. Foram eles que nos formaram.
Alguns, talvez os mais vivos, já aposentados, estão bem. Os vencimentos tão exaustivamente debatidos em reuniões e intervalos de aula provavelmente são suficientes para comer e pagar os impostos empurrados goela abaixo de todos os brasileiros. Outros mais desavisados podem estar a roer beira de sino esquecidos do que fizeram na vida; esquecidos pela sociedade da dedicação quase santa aos seus alunos.
Então, no dia seguinte e por estas linhas, o nosso agradecimento ao colega que partiu, sua opção em ser professor e sua dedicação à tarefa de educar e ensinar, condição básica para o desenvolvimento.
Francisco Nery Júnior

