7 de setembro de 2026 06:59

Brasil do século XIX a Sete de Setembro de 2026

Redação PA Notícias

O Brasil exporta petróleo bruto, mas importa óleo diesel. Não há refinarias capazes de refinar o nosso petróleo em quantidade e qualidade adequadas. A pendência, em todos os aspectos, vem lá dos tempos coloniais e início do Império – até agora.

Disto a nossa motivação em grafar para o leitor do site trecho de Sobrados e Mucambos por Gilberto Freyre, página 526 da 10a edição, Editora Record. Um setor de meio ambiente não se apaixona pelas árvores, uma academia de letras pode ser tudo menos apaixonada pelos textos e produções, uma repartição pública não se compraz em atender bem o povão, uma parte do setor judiciário não oferece esperança de justiça, políticos e gestores praticam a máxima da farinha pouca, meu pirão primeiro; uma suprema corte faz mais política e semeadura do ódio que justiça. Procure, leitor que luta em não desistir do Brasil, um lugar confortável para se sentar, relaxe e curta o texto, ipsis litteris, nada menos que do reconhecido autor Gilberto Freyre:

Por outro lado, muitos eram os que, estando em situação econômica de possuir máquinas nas suas fazendas ou engenhos, superiores às rudes caranguejolas de que se serviam, para moer mandioca, café, cana, e nos seus sobrados, moinhos domésticos em vez de rudes pilões, contentavam-se com essas simples caranguejolas e esses rudes pilões. Contanto que não lhes faltassem negros e bois. Principalmente negros. Os próprios cavalos eram antes para sua ostentação social que para seu uso. Os bois apenas para auxiliarem os negros.

Mawe, na propriedade do Capitão Ferreira, em Morro Queimado, no Rio de Janeiro, ficou surpreendido com as instalações arcaicas: engenho e destilaria. Disse o inglês ao capitão, ao ver as fornalhas da destilaria, que não podiam ser piores. Ao que o capitão respondeu que na região não se conheciam melhores. A verdade é que, segundo pôde observar o inglês, os senhores brancos do tipo do Capitão Ferreira deixavam quanto era serviço mecânico nos seus estabelecimentos ao cuidado de negros, de escravos. Nada sabiam do funcionamento das máquinas. Quando Mawe procurou convencer o capataz da destilaria, que era um negro, que estava-se gastando inutilmente imensa quantidade de combustível e que era possível corrigir o gosto desagradável da aguardente que Morro Queimado produzia, o negro riu, certo de que tendo aprendido a fabricar cachaça com velho fabricante, não havia processo melhor de produzi-la; indiferente ao problema de desperdício ou de economia de combustível. Concluiu o inglês que sendo os proprietários indiferentes a melhoramentos mecânicos nos seus estabelecimentos e nas suas casas e tudo deixando à direção ou ao critério de homens de cor, escravos ou servos que se contraíam de quanto fosse aumento temporário de trabalho, não era possível que o Brasil saísse da rotina. E a rotina pode-se generalizar que era a do mínimo de máquina e a do máximo de trabalho escravo apenas auxiliado pela energia do boi ou pela energia da mula.

Era uma aversão, a dos proprietários de engenhos e de estâncias, de granjas e de fazendas – mesmo os residentes de sobrados ou casas assobradadas – pelos aperfeiçoamentos de técnicas de produção, nos seus estabelecimentos ou nas suas casas, comum aos brasileiros de tipo ou classe senhoril. “This aversion to improvement I have often observed among the inhabitants of Brazil”, notou Mawe, atribuindo o fato à dependência do negro ou do escravo em quem se encontrava a inteira organização industrial e não apenas a agrária do país: o fabrico de tijolo como o de açúcar, o fabrico de sabão como a exploração das minas. E ao negro, quando escravo, não interessavam, de ordinário, melhoramentos mecânicos que ele supunha virem aumentar-lhe se não o trabalho, as preocupações, e as responsabilidades. Igual observação fez alguns anos depois Walsh no interior do Império, a propósito da máquina de moer milho que encontrou numa fazenda: máquina arcaica e ineficiente que desperdiçava água. E não hesitou no diagnóstico: “[…] it is one of the effects of slavery”.

Donde ter sido, ao que parece, o pardo ou o mulato de cidade, o elemento que com mais entusiasmo concorreu para a mecanização do trabalho entre nós. (…)

Aliás, já Mawe, em Minas Gerais, surpreendido com a “apatia dos habitantes” pensara nas vantagens que haveria em introduzirem-se entre eles métodos ingleses de cuidar da terra e dos animais. O exemplo de uma única fazenda à inglesa supunha Mawe que muito poderia fazer no sentido de despertar gente tão apática, do seu marasmo. O mesmo ele pensara ao atravessar Santa Catarina: terra capaz de se tornar “perfeito paraíso” nas mãos de ingleses. E em Curitiba, o que mais lhe impressionara fora ver uma região capaz de produzir trigo do melhor, acompanhar as terras do Norte na cultura da mandioca, alimento inferior ao trigo. O que atribuiu ao fato do trigo exigir do produtor uma série de preparações mecânicas, inclusive moinhos e fornos; enquanto a mandioca, uma vez madura, podia ser convertida em farinha em meia hora e a farinha comida sem ter o seu fabrico exigido complicações de máquinas. Outra vez, o horror ao trabalho mecânico, à máquina, ao arado, ao moinho, sempre que era possível depender da simples técnica do indígena e do fácil braço do escravo para a produção de alimentos e de comodidades.

Introdução por Francisco Nery Júnior

P.S. Traduções:

– Esta aversão a melhoramentos [progresso] eu sempre observei entre os habitantes do Brasil.

– É uma das consequências da escravidão.

Retrato de dom Pedro 1º declarando Independência do Brasil

Imagem: Getty Images

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