“Ele me deu um puxão no braço na festa porque queria ir embora. Fiquei uma semana usando blusa de manga comprida para esconder o roxo.” O relato, aparentemente sobre uma situação cotidiana, faz parte da campanha de conscientização lançada pelo Ministério Público Federal na Bahia (MPF/BA) durante a instalação do Banco Vermelho, na última quinta-feira (13/08), na sede da instituição, em Salvador. A iniciativa, que integra as ações do órgão neste Agosto Lilás, busca chamar atenção para as diferentes formas de violência contra a mulher e mostrar que o feminicídio, muitas vezes, é precedido por um ciclo de agressões que pode começar de maneira silenciosa e gradual.
A campanha, proposta pela Assessoria de Comunicação do MPF/BA, apresenta relatos fictícios construídos a partir de situações reais e recorrentes vivenciadas por mulheres. Instalados ao redor do Banco Vermelho, os textos retratam diferentes formas de violência – física, sexual, psicológica, moral e patrimonial – e procuram provocar uma reflexão sobre comportamentos que muitas vezes não são reconhecidos como violência.
Lançamento reuniu autoridades no MPF em Salvador
O procurador-chefe do MPF/BA, Claytton Santos, deu as boas-vindas aos participantes e abriu a cerimônia de instalação do Banco Vermelho. A programação reuniu membros, servidores, estagiários, colaboradores e representantes de instituições que atuam na prevenção e no enfrentamento à violência contra a mulher.
Participaram da solenidade Camilla Batista, secretária de Políticas para as Mulheres do Estado da Bahia; Nágila Maria Brito, desembargadora e presidente da Coordenadoria da Mulher (TJBA); Ana Paula de Oliveira, promotora de Justiça (MP/BA); Adriana Manta, juíza do Trabalho (TRT5); Flávio Márcio Albergaria, superintendente regional da Polícia Federal; Vagner da Silva, superintendente regional da Polícia Rodoviária Federal; Sérgio Ricardo Goulart, defensor público-chefe da União na Bahia; Juliana Barbosa, diretora do Departamento de Proteção à Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis da Polícia Civil; e a tenente Arlene Pereira (BPPM).
Um banco para lembrar, reconhecer e agir
Idealizadora da iniciativa no MPF/BA, a procuradora da República Melina Montoya explicou que o Banco Vermelho foi pensado para causar impacto e chamar atenção para a violência contra as mulheres. A cor vermelha representa o sangue das vítimas, enquanto o espaço vazio do banco simboliza o lugar deixado por uma mulher que teve a vida interrompida pela violência doméstica ou de gênero.
“A exposição de relatos instalada ao redor do banco retrata uma realidade: o feminicídio, que conta com altos índices na Bahia, raramente acontece de repente. Em muitos casos, ele é precedido por um ciclo de diferentes formas de violência, que se intensificam ao longo do tempo”, afirmou Melina.
A procuradora destacou que a violência pode permanecer invisível para pessoas de fora da relação e que o agressor nem sempre corresponde ao estereótipo imaginado pela sociedade. “O homem que agride não é somente um agressor. Ele pode ser também um bom filho, um bom pai e viver uma relação aparentemente afetuosa”, explicou.
Segundo Melina, a conscientização precisa alcançar mulheres, homens e toda a sociedade. “A violência contra a mulher não é um problema privado. Quem identifica sinais precisa acolher uma mulher nessa situação, sem julgamentos. Precisamos conhecer e divulgar a rede de proteção para salvar vidas”, ressaltou.
Palestra abordou sinais de violência e rede de proteção
Antes da cerimônia de instalação do Banco Vermelho, o MPF/BA promoveu a palestra “Nem toda violência deixa marcas: como reconhecê-las, exercer seus direitos e acessar a rede de proteção?”, ministrada pela secretária de Políticas para as Mulheres do Estado da Bahia e presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos das Mulheres, Camilla Batista.
Durante a atividade, Camilla alertou para formas de violência que podem não deixar marcas físicas, como o controle sobre roupas, amizades e relações familiares, além da manipulação e do isolamento. “Se a gente não fala, a violência não para”, afirmou.
A secretária defendeu que as mulheres procurem a rede de proteção já diante das primeiras agressões e destacou a importância de conhecer os serviços disponíveis, como a Casa da Mulher Brasiliera de Salvador. Segundo ela, o enfrentamento à violência depende da atuação articulada de diferentes instituições e da conscientização da sociedade.
Camila também apresentou o projeto “Oxe, Me Respeite”, desenvolvido nas escolas, e destacou a importância de trabalhar com estudantes para que desenvolvam um olhar crítico sobre as redes sociais e os conteúdos direcionados pelos algoritmos, especialmente diante das suas influências entre crianças e adolescentes.
Símbolo de conscientização
Para a procuradora regional dos Direitos do Cidadão (PRDC) do MPF/BA, Marília Siqueira da Costa, o Banco Vermelho pode ajudar mulheres a reconhecerem situações de violência e a buscarem apoio. “O agressor não pertence a um grupo social específico, ele pode estar bem próximo. Nossa campanha pretende provocar uma reação, onde a vítima possa reconhecer a situação e buscar ajuda ”, afirmou.
Agosto Lilás – A campanha do MPF/BA marca os 20 anos da Lei Maria da Penha, reforçando a necessidade de ampliar o conhecimento sobre os diferentes tipos de violência, os sinais de alerta e os caminhos para buscar proteção e interromper o ciclo de violência.
Assessoria de Comunicação
Ministério Público Federal na Bahia

