30 de junho de 2026 14:31

Tempos bons de São João

Redação PA Notícias

São João Batista, o precursor, o anunciador das Boas Novas; o maior dos homens segundo o próprio Cristo. O João festejado no Nordeste do Brasil. Primeiro de julho de 1974, ao aportar na Paulo Afonso do Acampamento Chesf e da Vila Poty, um cheiro diferente a lembrar o São João dos pioneiros que aqui chegaram para sempre – cheiro da fumaça e da fuligem da recente festa de São João.

Era bom e era diferente. Tudo vinha do coração apegado à terra do Nordestino que nunca desiste. Hoje, hoje em dia tudo é diferente. O entusiasmo amainou; um pouco amainou. Um estouro de bomba – não daquelas indecentes, horrorosas e assustadoras que já deveriam ter sido proibidas, mas umas bombinhas, embora umas bombinhas, que nos despertam o louvor a um designado por Deus.

Algumas fogueiras na rua, a maioria delas montadas e acesas pelos mais velhos. As ruas um tanto ou quanto vazias. O pessoal deve ter se refugiado nas roças e nos sítios, aqueles sítios que o nordestino adora e onde ele parece recuperar as forças e encontrar a paz plena de espírito. Muito milho e amendoim ao redor da Feira Grande. Muita coisa par se ver e comprar dos abençoados e renitentes nordestinos que não desistem de lutar pela vida. Eles, todos eles – ou todos nós -, parecíamos formigas fustigadas em um formigueiro. Todo mundo, cada um, cada pessoa parecia ter na alma o sentimento de um São João abençoado sem a cachaça condenada pelo papa Francisco; a dita cachaça que os meninos da obra afirmam abrir a porta para o capeta, o encardido do Padre Léo. O São João de Paulo Afonso é, definitivamente, uma folia.

Lá por 1974, em cada casa uma festa, Em cada calçada uma fogueira (dentro a imagem do Padre Cícero virtual santo do Nordeste). Ruas estreitas, algumas ainda de barro pisado, mas a fogueira a acender a alma e a esquentar o espírito. A ditas ruas já haviam, a fogueira acesa, sido limpadas dos detritos dos frangos e galinhas tratados para a festa; detritos jogados no meio da rua para os urubus. Era o que se podia notar nas ruas da cidade: detritos providencialmente jogados na rua para alimentar os urubus.

As ruas ganharam meio-fio e asfalto e os urubus desapareceram. Não mais urubus nas ruas de Paulo Afonso; muito menos nos telhados. Tudo mudou para o bem ou para o mal. Algumas vezes, algum deles, descuidado pela fome, morria atropelado pelos nossos pneus e a carcaça jazia no meio da rua tisnando o entusiasmo dos citadinos pela festa e pela socialização.

Casas, clubes e residências ostentavam bandeirolas e guirlandas, termo que aprendi com a professora Noêmia em festa do Ciepa. Pratos de canjica e travessas de amendoim para quem quisesse beliscar e, evidente, Luiz Gonzaga e a sanfona a alegrar. Os mais expansivos, ou os mais desacanhados se o leitor preferir, passavam de casa em casa a provar o licor dos vizinhos que disputavam o elogio da qualidade e do gosto.

Dávamos uma volta e retornávamos para casa para encontrar roupas e tecidos impregnados de fumaça. Nenhum problema, tudo poderia acontecer na Festa do São João. Não importa que os serviços de pronto-socorro se congestionassem com casos de queimaduras de fogos de artifício. Não importa algumas investidas fora da curva nas danças de forró. Exageradores do licor a jazerem em calçadas e música em altos decibéis a incomodar os mais prudentes. Tudo tomava o seu lugar após o São João passar.

Não nos esquecendo do João primo do Salvador do mundo a quem pertence toda nossa consideração e agradecimento.

Francisco Nery Júnior

Imagem repodução

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