Na organização, ele era o bobo da corte – não no sentido semântico atual. Bobo da corte era uma espécie de assessor privilegiado e capaz na corte dos reis; um consultor. Talvez pudéssemos compará-lo a um “stand-upper” dos nossos dias, aquele que diverte com conteúdo, sagacidade e inteligência.
Ivanildo um dia resolveu casar-se e recebeu toda a consideração que indiscutivelmente lhe devíamos: véu e grinalda na noiva, cerimônia solene, bolo nupcial e tudo que é devido a um casal de pombinhos prontos e aptos a garantir a população do pombal espetacularmente criado por Deus.
Presente e ativo, ele era – e sempre foi – uma inspiração para o grupo.
Há algum tempo não encontrávamos Ivanildo (estamos a pertencer a outra organização similar). A bem da verdade, de longe, nós, às vezes, o avistávamos; compenetrado e seguro de si. Ele tem muito boas costas quentes.
Fomos à casa da sogra, Ângela e eu, e estacionamos na frente. Ao lado, quase sem que percebêssemos, passa Ivanildo de bicicleta. Passou e pensamos ele não nos ter visto. O que esperávamos é que ele seguisse a marcha ciclista até quase bater no paredão de PA-IV onde, infelizmente, bateu o saudoso doutor André Falcão na sua última missão como presidente da Chesf.
Poucos metros adiante do nosso carro, ele voltou. Não seguiu sua caminhada individual, egoísta podemos dizer. Deu meia-volta e estacionou ao lado da minha porta que ainda estava fechada. Ele nos pareceu estar conduzindo algo congelado que precisava de refrigeração constante. Mesmo assim, ele voltou. Creio que, na sua cabeça, havia um sentimento, ou um dever, de cumprimento de missão. Ele voltou!
“Há quanto tempo não vejo vocês! Está tudo bem? Por onde andam?” Quase perguntou se precisávamos de ajuda. “Estamos em outra organização”, foi a nossa resposta para notarmos um profundo sentimento de alívio no nosso Ivanildo mandado por Deus. Ele estava preocupado com os dois velhos amigos e não toleraria vê-los desgarrados.
A semana tinha sido plena de bençãos e vitórias. O ato de Ivanildo, o sábio, humilde e amigo, foi apenas – fundamentalmente – o corolário de respostas insofismáveis, embora por veredas semeadas de pedregulhos, para as nossas dependências carnais e espirituais.
Francisco Nery Júnior

