10 de maio de 2026 08:28

Dia das Mães – Adão, pobre Adão

Redação PA Notícias

Já passa das quatorze horas da véspera do Dia das Mães. Todos os jornais louvam o dia delas. Pra que mais uma escrita? O leitor, provavelmente se preparando para demonstrar o seu amor pela sua mãe, pra que mais louvação?

Sozinho em casa ao lado de Lady, ela uma mãe canina (a mulher na casa da sua mãe a almoçar), a lembrança da Minha Mãe. Calma, leitor, estarei logo mais na casa da sogra para o jantar de gala; de reconhecimento de Dona Maria das Graças como uma mãe irrepreensível.

Antes de entrar com Dona Eunice, a minha mãe também quase sem mácula, um pouco do velho Adão. Ele não teve mãe! Não teve. Talvez por isso mesmo titubeou na primeira investida da serpente através de Eva, a danada da Eva. Vamos retirar “danada” e colocar “infeliz” Adão, o pobre Adão, não teve a mãe cuidadosa e aconselhadora que nós, conista e leitores, tivemos. Ele não teve a quem consultar no pacato e solitário Éden. O Deus onipotente e Criador foi escanteado. Eva, embora saída da sua costela, bandeou-se para o inimigo. Rendeu-se aos seus encantos. A serpente atrapalha a nossa vida até hoje pura e simplesmente devido ao solitário Adão. Mais uma vez, o tíbio e vulnerável Adão sem mãe.

Agora a velha Eunice de 105 anos e 6 meses. No seu ventre, eu me desenvolvi. Adquiri carne e ossos em uma máquina indescritivelmente maravilhosa. O meu corpo, como o dos leitores, obra de uma arquitetura muito mais que espetacular. Durante nove meses suguei o vigor e a dádiva da vida dentro do útero da minha mãe.

O prazo de validade chegando e eu não queria sair, eu que não sou bobo. O mundo exterior me apavorava. Parece que eu estava adivinhando, ou alguém me avisou. Na verdade, eu já pressentia que os momentos de felicidade seriam tão poucos. “O mundo vos odeia” [bíblia], parecia ouvir. Finquei o pé e não saía. Nono filho do velho Francisco (os oito anteriores saíram pela figura da parteira), só eu recusava sair. Haveria que se chamar um médico, o que foi feito. E eu, finalmente, saí!
Devo ter chorado mais que os leitores. Eu não queria sair, deixei muito claro. Saí e precisava de um nome. O Velho Nery não contou conversa após o eficiente trabalho do médico: “Doutor, o nome do menino será dado em sua homenagem”. Creio que já exausto (eu dei trabalho para sair), veio a observação: “Não faça isso, seu Nery, o meu nome é muito feio”. E o velho Nery: “Como é o seu nome, doutor?”, para ouvir a resposta: “O meu nome é Francisco”. De forma que Francisco Nery Júnior por causa do médico e não por causa do pai também Francisco.

A mãe, a de que falamos anteriormente, a que me trouxe à luz e se desdobrou em cuidados visando à minha sobrevivência e educação, aquela que foi capaz de várias renúncias em meu favor, a minha mãe se recuperava do trabalho que eu dei para me desvencilhar das suas entranhas enquanto um pai e um médico, esquecidos das agruras do trabalho de parto, displicentemente discutiam o nome do menino.

Francisco Nery Júnior

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