7 de junho de 2026 17:18

Um dilema

Redação PA Notícias

Olegário Mariano diria que “é ridículo, não nego”. Mas vamos lá. Acordo pela manhã e, ao passar por uma alameda do jardim, no chão um ratinho. Era um filhote, dia, talvez dia e meio de nascido. Deve ter se perdido da ninhada. Não sei como estaria a mãe, se é que ela havia contabilizado a ninhada.

O fato é que o ratinho, daqueles mimosos que aparecem nos desenhos animados, se virava e se contorcia, provavelmente à procura do calor materno infelizmente perdido. Mesmo lhe fiz um afago na pequena cabeça. As formigas, aquelas vilãs pequeninas que só elas, vorazes e avarentas a acumular não sabemos para quê; as sovinas das formigas já ensaiavam dominar e submeter o pobre recém-nascido para levá-lo para o estoque da despensa.

Eu estava a trabalhar no meu sítio. As casas do BNH são um verdadeiro sítio e trabalhar é salutar. Além de sítio, são a nossa academia que nos garante o bom colesterol e evita as doenças. São, ademais, um mandamento cristão: “Meu pai trabalha até agora e eu trabalho também”.

Mas o rato. Eu o coloquei em um lugar seguro enquanto não sabia o que fazer e voltei a trabalhar. Finda a tarefa, o ratinho! Pensei em criá-lo. Mas criar um rato?! E as pestes que ele poderia trazer? A bubônica sempre é bem lembrada aqui no Nordeste. Fora de cogitação criar o rato. Olhei para o lado e a gata da casa já se aproximava. Talvez pelo faro. Livre das formigas, ele poderia servir de petisco para a gata.

Fiquei sem saída e comecei a pensar no sacrifício. Num beco sem retorno, cheguei à conclusão que o melhor para ele, livre até agora das armadilhas do mundo, seria ser sacrificado. Afinal, ratos se reproduzem facilmente. Ele era apenas um; mais um.

Minha cabeça trouxe de volta uma discussão em um grupo de engenheiros estudantes de inglês meus alunos a título de exercício de conversação. Eu admitia que, se tivesse nascido com uma deformação grave e irreversível, preferira ter sido sacrificado logo após o meu nascimento chamando a atenção que isso na hipótese absurda de não existir um Deus Supremo e o advento do cristianismo. Eu, com poucas horas de vida exterior – ou dias -, sem raciocínio formado e sem capacidade de opção, teria preferido sair da vida por decisão de alguém outro que não eu.

O debate esquentou e a turma se dividiu. Um dos participantes até “se admirou” de ouvir aquela argumentação de alguém “que se dizia cristão”.

Para não encompridar a conversa, após considerar o sofrimento do pobre animal – ser jogado no quintal ou dentro de um esgoto qualquer para morrer à míngua –, decidi pelo sacrifício imediato com o terrível peso de aquilo ter que ser feito por mim. Paciência.

Francisco Nery Júnior

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *