O nome dele é, digamos, José. Entrou no banco despreocupadamente e encontrou na conta, mais uma vez digamos, uma benção, uma surpresa [não aguardada]. Era cedo em uma sexta-feira de carnaval. Ruas desertas e nem um pingo de gente à vista. Ao longe, como uma imagem de filme no deserto, um trabalhador empurrava um carrinho de picolé. Era o seu trabalho, ele o verdadeiro trabalhador do Brasil.
A imagem se ampliou. Agora o jovem persistente (a rua estava deserta) estava perto, cara a cara com José. José não contou conversa. Sob orientação que não importa de quem, meteu a mão no bolso e passou-lhe uma nota de dez reais para docemente ouvir que “até agora não vendi nada”. Sem muito floreio – ele já deve estar calejado da sorte -, o jovem, na realidade um quarentão devidamente queimado do sol, empurrou o dinheiro no bolso, sim agradeceu, e desapareceu como sempre desaparecem os tais da nossa vida.
José, saído do banco, alma leve e plácida, voltou para casa sem antes, porém, deixar de encontrar uma senhora com uma bacia na cabeça. Ainda de dentro do carro, “tá vendendo alguma coisa?”. A resposta foi que vendia umbu catado na caatinga. José lhe comprou dois sacos e, mais uma vez, a alma foi lavada – e compensada: “Você acabou de aliviar um peso danado na minha cabeça”.
José não perdeu nada. Ele apenas havia restituído uma ínfima parte do que tem recebido na vida. Nesse clima, José, o cabra desta história, saboreou, já em casa e de perna pro ar, a melhor umbuzada da sua vida.
Francisco Nery Júnior
P.S. Há, cremos, uma secretaria municipal de agricultura. Por que não semear árvores frutíferas nativas, tipo umbuzeiros, caatinga afora para de fato beneficiar o pessoal da zona rural? Ou umbuzeiros não dão voto?
Umbuzeiro – a árvore do umbu (Foto: DoDesign-s)

