Ele era meu vizinho pulando uma casa. Nós nos tornamos amigos, além de vizinhos, nada menos por causa de Cindy, uma cachorrinha preta perdida na rua que ele logo adotou. Nós passávamos em frente à casa e, inevitável pelo seu charme, um afago. De afago em afago, Cindy, toda vez que podia escapar, um chamego com Lady – e com todos nós da nossa casa. Sempre pela manhã, a olhada no portão e, muitas vezes, ela deitada a nos aguardar.
Eu olhava para a sua barriga e ficava certo que estava cheia, sempre cheia. Mas era inevitável um tira-gosto. Ela com toda a gula a se empanturrar e nós a quebrarmos a recomendação dos veterinários. Ela comia por lá e se empanturrava por cá. Seis meses atrás, ela se foi. Nós passávamos pela frente da casa e Aguinaldo, disciplinadamente sentado na sua cadeirinha, celular na mão, curtia a ausência de Cindy.
Ele se foi no dia de ontem. Aguinaldo Cabral de Lima deixou, para todos nós, uma saudade sólida de honradez – que talvez esteja fora de moda. Fomos, os seus vizinhos, à solenidade de sepultamento. À espera de parentes distantes, o sepultamento passou das sete da noite, cemitério à luz da Chesf. Mais bonito e mais agradável que à luz do escaldante sol do sertão. A propósito, alguém poderia explicar por que cargas d’água não há sepultamentos sem limite de horário? Alguma lei sanitária, alguma implicação dos 6X1, da escala de trabalho?
Os seus amigos, irmãos maçons, professores do Ciepa e vizinhos marcaram presença até o final. Poucos, muito poucos, tiveram que retornar às suas atividades essenciais. Mas nós outros do núcleo duro permanecemos até a última pazada – ou colherada – de massa que lacrou a existência final do Pai de Cindy – e da professora Flávia e irmãos – como às vezes carinhosamente o chamávamos.
Que bom que não vimos o carrinho horroroso para a condução do féretro. O nosso prazer, como nos bons tempos da sensibilidade, foi carregar o amigo na mão, mão na alça do caixão. É a última coisa que podemos fazer, uma espécie de vingança contra a vitória provisória da morte. Ó, morte, onde está a tua vitória, bradaremos um dia. No meu sepultamento, na realidade na minha cremação, amigos na alça do meu caixão. Se não os houver, por qualquer circunstância, uma poupança já providenciada para pagar a minha condução a quem, no derredor, se dispuser a fazê-lo.
Dessa forma, Paulo Afonso vai se tornando uma cidade “normal”, seus anciãos a passarem o bastão para os mais novos, os pioneiros a deixar a sua marca na história de uma cidade que veio, a despeito da incredulidade de alguns, para exercer o papel de cidade importante do Nordeste do Brasil.
Francisco Nery Júnior

