18 de outubro de 2026 08:05

O pai de Gabriel Garcia Marquez e o meu pai

Redação PA Notícias

Ambos contadores de histórias contumazes. Contavam e nunca perdiam a oportunidade de repetir as mesmas histórias. Garcia Marquez, em Vivre pour la raconter, lembra um seu irmão mais velho, ocasião de uma visita: “Meu pai, se o senhor vai contar aquela história [sobre um acontecimento qualquer] me diga que eu vou sair”. Já o meu pai ouvia da minha mãe “Lá vêm as histórias de 1901” (ano do seu nascimento).

Mas eu gostava de ouvir, como entendi que Garcia Marquez também gostava. O seu pai, como o meu, foram fundamentais no nosso desenvolvimento. Foram amigos inseparáveis que forjaram o nosso caráter caminhando junto – e nos tolerando nas nossas fraquezas. Sobre as histórias do meu pai, eu o ouvi, em resposta à minha mãe: “Mas Chico Nery gosta”. Gostava e me refestelava. Se minha mãe soubesse como elas me ajudavam nos meus testes de escola!

Tudo isso, leitor, para ouvi-lo dizer; imaginar ouvi-lo dizer: “Lá vem esse Nery com suas histórias! Uma delas, na Igreja Batista Central. No culto da noite, a esposa do pastor Rex Bryant no púlpito, eu como intérprete ao lado, iniciou a sua fala com um “bom dia” para ouvir a turma reagir com uma gargalhada mais ou menos estrondosa. Mais ou menos desajeitado, tive que lhe explicar que, ao contrário de good day e bonjour em francês, bom dia só pela manhã no Brasil.

Vem a história do meu pai que ele testemunhou em uma igreja de Salvador. Na época, as missas, principalmente as solenidades de batizados e casamentos, eram acompanhadas por música ao vivo. O meu tio materno Waldemar da Paixão e o meu pai, oficiais da Polícia Militar da reserva (mestre e contramestre da Banda de Música), completavam o orçamento familiar tocando em tais ocasiões. Ainda bem que até eu me formar (eu o penúltimo filho da prole) a música eletrônica não tinha estragado a festa dos dois.

Em uma das tais missas, a igreja lotada na velha e doce Salvador, o padre, na sua homilia, argumentou, a igreja no mais profundo silêncio e os fiéis na mais doce reverência, que “o estrangeiro fala pouco e obra muito, enquanto o brasileiro fala muito e obra pouco”.

A gargalhada da negrada (o termo não é ofensivo na Bahia, negrada no sentido de a turma)) foi inevitável – provavelmente um escândalo dentro de uma igreja católica dos meados do século vinte. O meu pai sempre arrematava que nunca mais viria a ver o padre em qualquer solenidade que fosse. Ele deve ter sido transferido pelo bispo e deve ter aprendido uma oportuna lição de comunicação.

Francisco Nery Júnior

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