2 de outubro de 2026 19:38

A peneira do Mestre João do Bucho

Redação PA Notícias

João do Bucho. Era assim que o chamavam. Não que tivesse uma barriga exorbitante. É que a turma exagerava. Foi meu mestre fiel nas minhas obras, apresentado por outro mestre que também excedia em competência e lealdade, Mestre Otávio Possidônio.

Não sei se lhe compensei, dentro das minhas possibilidades, com o que sobrava do pagamento dos meus impostos. Só me lembra as feijoadas que fazíamos regularmente no piso das obras. Restos de paus de escora, ripas e caibros, panela de barro que mantenho até hoje, pitacos de todos, pedreiros outros e ajudantes, que nem sempre somavam. “Na próxima obra, professor, não deixe de me chamar”, lembrava. Não que lhe faltassem obras em Paulo Afonso, obras que ostentam, de pé, a capacidade e o trabalho de João do Bucho. Eu o chamava… e o via ir embora após estabelecer o grosso da obra e deixar o resto para nós outros que com ele aprendíamos.

O diabetes o pegou, porém, e ele foi perdendo as forças. Foi minguando enquanto nós o exortávamos a procurar um tratamento adequado. Ele, por certas injunções da vida que não compreendemos, rejeitava tratamento. “Vamos ao posto, seu João”, insistia Tatá seu fiel escudeiro quase até o final da ópera. Em vão insistia com certo desespero. “Vamos, homem, tem atendimento competente e fácil nos postos de saúde”. Em vão repetia Tatá para ouvir “deixe eu morrer aqui na minha caminha velha”. E lá morreu o meu amigo João do bucho.

Morreu e deixou de herança para o fiel ajudante os seus pertences, isto é, suas ferramentas. “Quer essa peneira, professor?”, me lançou um dia o depositário de parte do espólio. Evidente que quero, respondi. Por um bom espaço de tempo ela me serviu. Servia e lembrava, a nós outros seus amigos, o velho e batalhador mestre de obras de nós todos. O tempo correu e a peneira de areia começou a apresentar alguns pequenos furos que a invalidaram.

Final da história é que eu a coloquei em uma forma de concreto e ela jaz no meio de uma das peças que compõem uma das passarelas do meu jardim.

Francisco Nery Júnior

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