No dia 15 de setembro, o Brasil parou para acompanhar uma sessão do Supremo Tribunal Federal que se reunia para decidir sobre uma investigação do ministro Alexandre de Morais. Todos os brasileiros disponíveis assistiram ao espetáculo ao qual a maioria não poupou adjetivos os mais degradantes. Foi, na realidade, um show de horrores na Suprema Corte. De minha parte, eu estava vendo pela televisão um bando de leões famintos a acuar e tentar estraçalhar a presa, quase sozinha e por si só, que imaginavam desamparada; momentaneamente desamparada. Espetáculo aterrador; triste e lamentável. A ministra Carmem Lúcia foi ao ponto de pedir desculpas ao povo brasileiro, embora desculpas tardias segundo a própria ministra.
A presa, no caso, era o ministro André Mendonça que publicou áudios que poderiam ser provas de ligação do ministro Morais com o banqueiro preso e investigado Daniel Vorcaro. O caso é amplamente explorado na mídia nacional com repercussões no exterior. O fato é que três senhores ministros outros deixaram de lado a toga de juízes e assumiram a tribuna de acusadores do ministro André Mendonça. Pelo que acompanhamos até agora, nenhum brasileiro, mesmo os togados e doutorados na ciência e arte do direito, entendeu absolutamente nada. Alguns levantaram a necessidade de voltarem aos bancos da faculdade de direito.
Alguém lembrou lá atrás a máxima que todo povo tem o governo que merece (o STF opina e interfere em todas as eiras e beiras do país). Jesus, o Messias que veio ao mundo, o filho de Deus, ouviu dos seus acusadores que ele “tinha demônio”. O valente e corajoso André Mendonça viu-se facilmente no lugar de acusado por ter permitido a revelação de conversas supostamente comprometedoras do colega de tribunal e supôs que o seu pedido de investigação pudesse ser acatado pela maioria do Supremo. Compreensivelmente – ninguém é de ferro – pareceu, apenas pareceu, apequenado ante a turba agressora.
Entra na nossa pauta ninguém menos que Ruy Barbosa, curiosamente o Patrono da Advocacia Brasileira. Como estudante de letras, eu frequentava o Tribunal do Júri em Salvador para beber na fonte a verve, o entusiasmo e a oratória dos tribunos da Bahia. Lá, aprendi o conceito de advocacia tal como concebido por Ruy Barbosa: “Missão sagrada de defesa dos direitos, da liberdade e da justiça contra o arbítrio e o poder”.
Eu estava no quarto ou quinto ano do curso primário e era o melhor aluno da classe. Na escola, um representante da Secretaria de Educação do estado em visita de inspeção. Na minha sala, ao saber que eu era o melhor da classe, me presenteou com um livro sobre Ruy Barbosa onde encontrei a famosa citação do grande tribuno baiano que se revela completamente atual: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”
Francisco Nery Júnior

