Pior ainda, de nó cego. Resigne-se. Se empertigue e vá em frente. Nem sempre quem com muitas pedras bole uma lhe cai na cabeça. Use capacete e siga em frente. O cachorro que anda muito pode achar osso, e não bordão. Tenha sempre em mente que a História está repleta de “rebeldes” – os nossos heróis; os que salvaram a humanidade, alertaram, educaram e conduziram os seus semelhantes a grandes saltos para a frente.
Mas, na prática, o que você faria se lhe chamarem de rebelde? Como reagiria? Desistiria dos seus princípios? Não importa que o tempo lhe tenha dado razão. Não importa que as instituições por onde você passou tenham oferecido aos “clientes” pífios e insignificantes resultados. Você, de antemão, teria se arrependido?
O que fazer, por exemplo, se você e os membros do seu grupo tivessem apertado o cinto e colaborado para a compra de um instrumento, no caso um automóvel, para um serviço eminentemente social e religioso e vissem o líder do grupo a levar o filho para o colégio enquanto você, igualmente estudante, gastava a sola do sapato? Ou se você notasse roubalheira flagrante no grupo a que você pertence? Você permaneceria no grupo de olhos fechados, garantido contra uma perseguição do seu chefe por força de uma lei trabalhista, mesmo uma demissão da sua empresa, ou você arrumaria a mala e partiria – e poucos meses depois veria a falência inexplicável da empresa?
No caso de a mulher do chefe se locupletar de benefícios e, no final do mês, receber 50% a mais do que você e os outros membros do grupo recebem; você se transformaria em um “rebelde” ou “ficaria na sua”? Acrescente-se o fato de você, só você, ser convocado para as tarefas mais difíceis ouvindo que você foi “escolhido” ou “indicado”? Você toleraria tamanho cinismo?
Ser rebelde. Ser ou não ser? A propósito de um empréstimo, o gerente de um banco estadual lhe passa uma folha de papel em branco, um formulário, e pede para você assinar. Você argumenta que aquilo é, no mínimo, uma contravenção e descobre, anos mais tarde, a sua ficha bancária carimbada de “cliente indesejável”. Você é um rebelde?
Ainda, naquele banco estadual, que não é mais, você passa da fila comum e entra na fila preferencial, tendo já sessenta anos, e o caixa cria um problema. O que fazer para escapar da pecha de rebelde?
Outrossim, você no rabo da fila, o banco fecha a porta próximo ao fim do expediente e você sai – você já um idoso – e se senta em um banco ao lado. A fila já reduzida, você se levanta e volta. O caixa alega que você não estava na fila. Não importa que o gerente tenha intervindo e tenha ordenado o seu atendimento. O que você teria feito? Pelo menos, qual teria sido a sua avaliação? Você admitiria que você é um “rebelde”? (Os exemplos se referem a um só e único banco.)
Com essas e outras, tal banco perdeu um cliente que já chegou, a um só tempo, a mais de meio milhão de reais em sua conta corrente.
Então e assim sendo, como não ser rebelde se você é alguém que pensa, age dentro das quatro linhas e tem um mínimo de conhecimento dos seus direitos?
Ainda bem que por onde você passou você deixou um saldo de importantes e significativos avanços em benefício da comunidade. Ainda bem que chegamos a um grau relativamente alto de civilização graças aos “rebeldes” da História da humanidade.
Francisco Nery Júnior

