29 de maio de 2026 12:39

Fim da escala 6×1

Redação PA Notícias

Ela está na Constituição Federal de 1988, a constituição besteirol no entendimento do ex-senador Roberto Campos. Deve ser reduzida para 5×2 se o Senado da República mantiver o texto aprovado ontem, 27 de maio, no plenário da Câmara, ocasião em que os senhores deputados se divertiram aos cântaros em um show surrealista onde o arremesso de lama – e a grosseria – foi o principal argumento dos “debates”. Eles passarão nababescamente amparados nas mordomias financiadas por nós outros pobres passarinhos.

O trabalhador brasileiro, mantido o texto da lei no Senado, passará a trabalhar cinco dias da semana e terá dois dias remunerados para descansar.

O ano era o de 1967 e eu entrava no mercado de trabalho nas Folhas de Pagamento da Companhia Energia Elétrica da Bahia, CEEB, depois Coelba e agora não sei o quê. O regime da companhia já era 5×2, mas nós éramos coagidos a trabalhar no sábado pela manhã e, nos dias da semana, até as dez horas da noite para receber o que o artifício patronal chamava de horas extras. No final do mês, nobre leitor, retiradas todas as obrigações e despesas, o jovem sonhador e ainda crente na boa vontade dos homens mal conseguia comprar uma camisa dessas brasileiras que desbotam na primeira lavada (as camisas que comprei na França e em Cabo Verde ainda as exponho nas ruas de Paulo Afonso após vinte e cinco anos de uso. O mesmo se refere às que adquiri nos Estados Unidos, tempo de estudante, duas ou três, em brechó (que hoje não vale mais a pena).

Então aquele jovem autoconfiante e bem preparado pelos pais, pela igreja e pelos professores, desanimado e quase descrente, se interrogava se estaria condenado a nada no regime e nas circunstâncias descritas para o leitor. Trabalhar em escala 6×1, perder o sábado de descanso e trabalhar os cinco dias da semana até as dez horas da noite se mostrava, para mim, uma escravidão.

Eu estava por lá num interregno de amadurecimento contra a vontade, diga-se de passagem, do meu pai que desejava me ver decolar na vida. Evidente que, com a couraça que conseguiram me prover, tratei de conseguir a minha alforria – com estudo, dedicação, trabalho, poupança e investimento; contra tudo, quase tudo, e contra quase todos.

Em clima de eleições dentro de quatro meses, a Câmara Federal reduziu a carga de trabalho do sempre engabelado trabalhador brasileiro. Ótimo, finalmente mais um avanço. Só que me vem à cabeça o discurso do senador João Calmon por ocasião do debate das chamadas Reformas de Base do Governo João Goulart: “Reformas certas na hora certa, não reformas erradas com um João errado”.

Nesse ínterim, o Titanic brasileiro navega o mar revolto da nossa economia. Assustados, nós outros do convés inferior tememos o naufrágio.

Francisco Nery Júnior

Imagem: PT – Partido dos Trabalhadores

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