Eu era um menino e brincávamos nós outros nas calçadas do bairro. Andávamos de bicicleta. Logo à frente, se aproximava o velho e vetusto tenente Sandes, paletó e gravata certamente, embora estivéssemos em um dia quente de verão. Não sei se ele me reconheceu, ele tenentão amigo do meu pai seu colega de Polícia Militar. “O passeio é para o pedestre”, disparou duramente, embora com certo grau de afeto e compreensão.
Claro que descemos rapidamente (os tempos eram outros e o conceito de ancião, ou “dos mais velhos” ainda estava em vigor). Não me recordo se, dali pra frente, passamos a andar de bicicleta exclusivamente na rua – não mais nas calçadas.
A título de nota, já fui abalroado em duas ocasiões nas calçadas de Paulo Afonso por ciclistas folgados, displicentes, digamos. Entretanto, não vejo mais ciclistas nas nossas calçadas. Não sei se eles se educaram no sentido do exercício da cidadania – e a consequente noção que as calçadas são para os pedestres – ou se estas, as calçadas, são efetivamente inapropriadas para aventuras ciclísticas. Na realidade, ela são um horror: buracos, barreiras e empecilhos de toda ordem para serem usadas pelos pedestres. Em algumas, jardins e canteiros forçando o transeunte a descer e continuar a caminhada na rua entre carros, motocicletas e caçambas ameaçadoras. Nos países desenvolvidos, o indivíduo pode desembarcar do avião e deslizar a sua mala por quilômetros a fio até sua residência em calçadas lisas e plácidas se essa for a sua escolha.
O questionamento que levantamos, a preocupação com as calçadas ou passeios, vem de longe, há mais de dois séculos, registrado por Gilberto Freyre em Sobrados e Mucambos minha deliciosa leitura do momento. No parágrafo seguinte, a descrição como aparece no livro:
“Os construtores e os proprietários dos prédios urbanos também foram sendo obrigados a respeitar a rua [final do século XVIII]. Obrigados a levantar seus sobrados com as testadas em alinhamento regular e não a esmo ou à toa como antigamente. Obrigados a entulhar os buracos e as poças de lama defronte das casas com caliça, areia, osso queimado. Obrigados a conservar o mesmo alinhamento nos passeios e calçadas, acabando-se com os constantes degraus e batentes de uma calçada para outra, cada proprietário não fazendo senão sua vontade nem atendendo senão aos interesses de sua casa.”
Acrescente-se a essa descrição a preocupação em propiciar o lazer nas ruas das cidades que começavam a se desenvolver em contraposição às fazendas com suas casas grandes e senzalas. Breve voltaremos ao assunto.
Francisco Nery Júnior

