Severino bateu à minha porta. Eu já desconfiava: morreu Pretinha. Ela era o remanescente da turma de Picolé no Ciepa. Chegou por lá e se entrosou. E se tornou nossa amiga. Interessante que todos a amávamos como amávamos a Picolé, o chefão. Eles, eles todos formavam uma pequena matilha auxiliar da segurança da escola. Ao me aposentar, encomendei aos colegas a continuidade dos cuidados aos nossos amigos caninos. E eles exultaram nesse mister. Foram, até hoje, morte de madrugada de Pretinha, muito melhores do que eu, escritor choroso desta matéria.
Severino, pau pra toda obra no ambiente escolar, honrado e valorizado por todos, sentiu-se na consideração de me comunicar o passamento de Pretinha. Ele a sabia minha amiga. Ele testemunhava a minha ida ao Ciepa nada menos que para visitar Pretinha e levar-lhe um bom, saboroso e nutritivo petisco. Duas buzinadas e ela acorria de que canto estivesse. E se empanturrava quase a estourar a barriga.
Saciada de dias e assistida por todos nós que a amávamos, partiu para o céu dos cachorros e nós, embora pejados de saudade, nos consolamos sabedores que fizemos o possível para ampará-la.
“É ridículo, não nego: mas como me comovia aquele pintinho cego que eu criava e não me via… E me acreditem, não nego, chorei com pena e saudade daquele pintinho cego… e entanto me conhecia e era feliz quando ouvia o timbre da minha voz.” (Olegário Mariano)

Francisco Nery Júnior

