“Muitos, sem saber, hospedaram anjos”. Tratamos de uma cadela. De menos de um quilo, mas uma cadela.
Vagava pela rua movimentada. Pequena como ela só, arriscava um atropelamento. Passamos e a vimos. Abrimos o portão e a recolhemos. Não nos restava outra alternativa. [Ela] poderia ser um anjo. Sim, um anjo. Ou o leitor nunca leu na bíblia Deus a se comunicar através de uma burra? A burra, jumenta em alguma versão, falou!
Ela entrou, tremendo de medo de mim e de Lady, se acomodou entre panos de boas-vindas, dormiu o sono dos justos, e deixou-se descansar. Comeu um mínimo de ração, carne ralada e ovo frito.
Como encontrar o seu dono, zeloso como demonstrava o seu trato? Falamos na vizinhança, fomos à Rádio Bahia Nordeste, que sempre nos recebe bem e não procura “se valorizar”. Ela ainda tremia.
Ele apareceu. Era Raphael, vizinho da esquina, nada menos que neto do pioneiro-mor de Paulo Afonso, o saudoso senhor Nicholson Chaves. É um grande prazer engrossar a fila dos pioneiros dos quais ele é um dos maiores.
A sua dona, esposa de Raphael, tutora, carece seguir a onda, armou barraca na minha porta à espera do seu tesouro. Nós a entregamos ainda com algum tremor. Ela se aninhou no colo aberto, ela um tesouro de dez anos.
Ah, pasme o leitor, ela deixou saudade! Só esperamos que não repita a traquinagem que quase a trucidou.
Francisco Nery Júnior

