Creio que ninguém viu. Com dois garrafões de adubo líquido em cada mão, tropecei e fui de cara contra o muro. Ainda bem que sempre procuro salvar alguma árvore na solidão de nós dois. Pensei ter quebrado o nariz, algumas gotas de sangue, e planejei uma luta contra os quebra-molas até chegar a um hospital qualquer.
Surpreendentemente para mim mesmo, superei a dor, levantei-me para cima, segurei com mais convicção a minha carga e a entreguei ao seu destino: duas árvores desleixadamente abandonadas; uma que me parece nada menos que um baobá.
Cumprida a missão, a dor se fez sentir e veio a preocupação de alguma possível fratura nasal.
O que me fez levantar com uma altivez impressionante, pelo menos para mim, foi a convicção – e o orgulho santo – de ter me acidentado tentando fazer algo de útil para o mundo e para a Paulo Afonso de todos nós. Ademais, por incrível que pareça, foi despertada em mim a satisfação de algum inimigo gratuito ter tido, por alguns instantes, o seu momento de triunfo tão desejado. Uma vez, ouvi do doutor Ricardo de Holanda que todos temos os nossos amigos e os nossos inimigos. E o Padre Leo a lamentar a nossa exigência do amor universal: “Será que todo mundo tem que gostar de você?!
Às árvores, muitas delas desprezadas e incompreendidas, “o que me resta agora é o seu amor”.
Francisco Nery Júnior

