A ALPA em movimento
A reunião foi na Biblioteca Municipal Natalice Barreto, próximo o Beco da Cultura, organizada por Rubinho nosso confrade e nosso editor ad hoc de livros e publicações, em 15 de outubro de 2025, com a assessoria de Socorro Marajara sob o guarda-chuva municipal da Semana das Caraibeiras (algo assim).Se cada poema em louvor das caraibeiras renascesse em uma nova árvore, a cidade estaria permanentemente pintada de um fulgurante amarelo.
Edson Barreto ficou um pouco (ele, responsável, correu de volta para suas aulas no Ciepa) e o presidente da ALPA, doutor Isac, prosseguiu. Inevitável a lembrança de Antônio Galdino, nosso eterno presidente. Eu, como um, o teria deixado no comando da academia ad eternum como a Academia Brasileira de Letras deixou Austregésilo de Atayde.
Fui preparado para a hipótese de um banquete literário. Somos todos escritores e adoramos escrever. Aliás, somos prisioneiros da leitura e da escrita. Para Gabriel Garcia Márquez, a vida era escrever ou morrer. No momento, a minha leitura é Viver para Contar [a vida] – do autor. A versão que leio está em francês (pescada em um sebo de Salvador). Leio uma obra literária leve e fluente, aprendo mais francês e aprimoro o meu inglês. É que pesquiso as minhas dúvidas no dicionário on-line Wiktionnaire francês/inglês. São três coelhos com uma cajadada só. Primeira dica para quem quer ser poliglota.
Mais dicas sobre escrever seguem em algumas citações que aparecem na primeira metade do livro que estou lendo:
Naquela noite, eu me impus um princípio como uma declaração de guerra: escrever ou morrer.
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(…) Isso me fez descobrir uma particularidade dos adultos que me tem sido muito útil desde que eu me tornei escritor: cada um embelezava a sua história com detalhes novos criados por eles [ou como eles viam e sentiam] ao ponto que as versões não tinham mais nada a ver com o original.
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[O autor ainda criança] … mas as minhas histórias eram na maior parte episódios da nossa vida cotidiana que eu tornava mais atraentes envolvendo-os em detalhes fantásticos para que os adultos me escutassem. A minha maior fonte de inspiração eram as conversas que os adultos mantinham diante de mim pensando que eu não as entendia ou aquelas que eles mantinham com palavras evasivas para que eu não entendesse. Mas era bem o contrário: eu as absorvia como uma esponja, desmontava todos os mecanismos, e procurava descobrir a origem e, quando eu as restituía àqueles que as haviam encetado, eles ficavam perplexos ante as coincidências entre o que eu lhes dizia e o que eles pensavam.
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Dotada desde a mais tenra idade de uma elegância natural e de uma forte personalidade [sua prima Sara Emilia Márquez], foi ela que despertou meus primeiros apetites para a literatura graças a uma encantadora coleção de contos de Calleja ilustrados em cores, que ela me proibia de tocar temendo que eu semeasse a desordem. Esta foi a primeira vez que eu experimentei uma amarga frustação de escritor.
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[Para meditação dos leitores] Eu tinha abandonado os meus estudos no ano anterior na ilusão audaciosa de poder viver do jornalismo e da literatura sem ter necessidade de nada aprender, me apegando a uma frase que eu tinha lido, creio eu, em Bernard Shaw: “Desde a minha mais tenra idade, eu tinha abandonado os meus estudos para ir à escola”.
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Voltando de Garcia Márquez, em uma boa escrita devem ser evitados exageros, floreios exagerados, figuras desgastadas, detalhes desnecessários, frases feitas. Na medida do possível, empregar palavras “exatas” e “leves”, a menos que o contrário se imponha. Literatura pode ser aquilo que o autor quer exprimir ou o que o leitor sente ou apreende ao ler uma obra literária; sempre ter em mente que literatura é arte; não é ciência. Fundamental ler bastante. Carece ser observador. Deve-se ruminar aquilo que se lê. Só se vomita aquilo que se come.
Introdução, fecho, compilação e tradução por Francisco Nery Júnior

