6 de março de 2026 07:35

A sopa nossa de cada dia

Redação PA Notícias

Lições de grandes mestres

Dirigindo, uma olhada de soslaio e uma fila. O pessoal, de cara meio fechada, porque ninguém gosta de filas, batia o pé; assinava o ponto. Tirava proveito de um principio liberal: era uma fila de sopa – para comprar sopa.

Com apenas oito reais, um pote de sopa. Não a sopa aguada fornecida fora do coração. Não. A sopa é substancial, cheia de legumes que nada atrapalham. Eles enriquecem a sopa que fica potencialmente nutritiva. Deu até para ver que eles botavam a mão no bolso, tiravam o dinheiro honrado e honesto fruto do suor do rosto – e pagavam. Eles sabem que não há nada errado, nada desonesto, nada exploratório na remuneração do trabalho. Trabalho é honra. Enobrece. Ativa o corpo. Economiza a academia, evita o hospital e fortalece. Tira a obrigação do voto de retribuição.

Pouco depois, em outra ocasião, em outro lugar, outra fila. Era a sopa! E em outros depois, as filas de sopa se multiplicam na cidade.

Que saibamos, não houve nenhuma conclamação. Nenhum plano nem nenhuma reunião. O “mercado” entendeu a viabilidade da sopa. É só pagar e levar embaixo do braço para casa – e se deliciar de papo pro ar. Nenhum fogão nem gás subsidiado. Nenhuma sujeira do processo de preparação em casa. O botijão do comprador dura mais.

O pessoal da sopa, os fornecedores, nem sabem que são liberais. Assentam-se em um canto, alguns pagam aluguel, respeitam as leis tributárias aqui e acolá pesadas, e praticam a sua cidadania.

E assim, com um mínimo de regulamentação, vivem e prestam um serviço essencial. Afinal, todos precisamos nos alimentar. Poderíamos afirmar que a prática da cidadania é um bem vindo de Deus; é uma benção animadora do viver.

Deles aprendemos muita coisa. Como Aristóteles Onassis disse que “se você não estiver sempre querendo mais, terá sempre menos”, um deles, assentado no meio da Rua da Frente, planeja a fabricação de alguns dos seus insumos, especialmente a linguiça artesanal “mais ecológica”. Pode parecer usura querer sempre mais, mas [isto] é simplesmente a antítese da estagnação.  “É de lei”, vaticinava Mestre João do Bucho. “Se der, nós faz”, tranquilizava Mestre Otávio, carpinteiro dos bons.

Alguns mestres passados primavam pela excelência do serviço prestado. Nos lembra Mestre Jacinto da Caçamba irado e revoltado com a caçambada de areia de péssima qualidade fornecida à obra do cliente por um ajudante descuidado. Seu “Luís Orelhinha” sem pressa de receber pelo serviço de eletricidade perfeito que perdura por quarenta anos. O negócio dele era produzir e, no final, contemplar o brilho das lâmpadas. No forro da casa ou na laje do prédio, da manhã à tarde, sem interrupção, ele trabalhava. Recusava o almoço merecido. Reconhecia o poder do trabalho, fazia a sua poupança e investia para segurança da sua família.

O que acabamos de expor, trabalho e produção, descartou, no passado e no presente, qualquer excesso de regulamentação e perda de tempo.

Dessa forma, vamos à sopa com todo o vigor – com toda confiança nos companheiros e nos camaradas que dão o melhor de si para nos servir.

Francisco Nery Júnior

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